Glicofobia

A mais desconcertante patologia do mercado consumidor brasileiro de vinho é a que chamo de glicofobia. Tal patologia fica clara, e se manifesta com o nervosismo que causa entre alguns associados, a seleção de um vinho em cujo contrarrótulo não se leia “seco”.

Desenvolvi uma teoria para explicar esse fenômeno. Não é comprovada, é só uma conjectura, mas não consigo explicá-lo de outra forma:

Por muito tempo e até um par de décadas atrás, a oferta de vinhos no mercado brasileiro era massivamente feita de vinhos produzidos no Brasil, vinhos de qualidade baixa, muitos deles produzidos com uvas não viníferas e a maioria chaptalizados. A chaptalização é uma correção inevitável quando, seja pela mesma qualidade da uva, seja pelas condições climáticas, a uva não produz açúcar suficiente para posterior transformação em álcool, exigindo o acréscimo de açúcar ao mosto. Esses mostos chaptalizados resultavam num vinho com razoável quantidade de açúcar residual, fazendo-os ligeiramente doces o que, por aqui, se convencionou chamar “suaves”. Como eram vinhos ruins, a associação entre suave ou ligeiramente adocicado e a má qualidade foi inevitável. Vinho suave = meio doce = vinho ruim. Em contraposição, vinho seco = vinho bom. Uma vez plantada a confusão, a mesma acabou por tomar volume com a ajuda de alguns conceitos, às vezes, confusos. Vamos ver:

glicofobiaA LEGISLAÇÃO: A legislação diz que um vinho é seco quando tem até mais ou menos – e digo mais ou menos
porque depende da lei de cada país – 3,0 g/L e semi-seco de 3,0 a 15,0 g/L. Ora, aí há um problema. Um vinho pode ter 5 gramas de açúcar natural por litro, mas não pode ter 15 gramas de açúcar natural por litro, e portanto, aqueles vinhos que pela “lei do açúcar” estão na mesma categoria de semi-secos são vinhos bem distintos e produto de vinificações diferentes.

O CONCEITO DE QUALIDADE: Se é que se pode medir a qualidade de um vinho pelo seu teor de açúcar natural, então teríamos que, quanto mais açúcar residual tem um vinho, melhor ele é. Indica uma melhor qualidade e sanidade das uvas, bem como uma colheita numa situação de maturidade de uvas ideal. De fato, a lei alemã do vinho os qualifica por açúcar. Quanto mais açúcar, melhor o vinho.

O GOSTO: Não há uma relação direta necessária entre o gosto doce de um vinho e seu teor de açúcar. Um vinho com 2 g/L de açúcar pode parecer mais doce que um de 3 g/L, já que o gosto doce depende de uma coleção de fatores. Existem no vinho outros elementos de sabor doce – o álcool, por exemplo –, e existem também elementos de sabor amargo que reduzem a sensação de doce. Finalizando: o fato de um vinho não ser qualificado como seco não tem nenhuma relação direta com sua qualidade, com a sua vinificação ou com seu gosto.

 

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Gosto não se discute

Ué? Mas são dezenas de milhares os livros discutindo gosto: sobre estética, decoração, moda, paladar, música, arquitetura, desenho industrial. Sobre gosto existem milhares de livros escritos. Nunca pude concordar com esse ditado popular. Mas cheguei perto de uma exceção: o “corte” de vinhos. “Cortar” um vinho é uma questão de gosto e sobre o qual não encontrei nada escrito.
Tendo surgido a possibilidade de cortar, para nosso clube, um vinho da vinícola Castillo Viejo, uma das mais tradicionais do Uruguai, e considerando que jamais fiz um corte que seria comercialmente engarrafado, minha primeira atitude foi procurar bibliografia a respeito. Não achei nada. Nem nos meus livros, nem na Internet. Não existe!
Creio que foi o Millôr Fernandes que disse: “Não podemos esquecer que o inventor do alfabeto era analfabeto”. E lá fui eu inventar o alfabeto para, então, contar, em primeira mão, a história aos associados.

 

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A fábula do pepino e do melão

Se alguém lhe vendar os olhos e lhe der um pedaço de pepino dizendo que é um pedaço de melão, o mais provável é que você, nauseado, dispense imediatamente o pepino, dizendo que aquele melão está horrível, ou, pelo menos, totalmente verde. Mas se, ao lhe dar o pepino, disser que é pepino mesmo, você o comerá com todo o prazer. Dito de outra forma, o pepino é um péssimo melão, mas, como pepino, o pepino é perfeito.
O mesmo acontece com o vinho. Se você tomar um vinho brasileiro, esperando encontrar a complexidade de aromas, o estilo e a elegância de um vinho das regiões produtoras tradicionais, irá se decepcionar, mas, se tomá-lo comparando-o com o que ele pretende e pode ser – um vinho bem feito, fresco, agradável, leve e saboroso, ficará surpreso. Surpreenda-se, pois!

 

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