Vinhos de Toro

Dizem que foi pelas mãos dos monges de Cluny que a uva e a produção de vinho chegaram àquelas terras. Isso ocorreu há mais de mil anos, mas parece que só agora, poucos anos atrás, é que se percebeu que Toro é capaz de produzir vinhos que estarão em breve entre os melhores tintos espanhóis. Até então, a fama desse vinho é que seria tão denso, a ponto de se poder cortá-lo com faca. O hábito local era de colher a uva em outubro, e isso, somado às 2.600 horas de sol anuais da região, produzia uma uva supermadura da qual saíam vinhos muito alcoólicos, com pouca acidez e quase doces.

No subsolo de Toro encontra-se uma grande quantidade de limonita, que é um mineral muito utilizado para a produção de pigmentos e corantes. Imaginemos, então, a cor que esse vinho teria! Uma camisa manchada com vinho de Toro tem de ir para o lixo, diz o ditado.

Foi com esse vinho que se popularizou a figura do comerciante ambulante de vinhos, que os transportava em odres numa carroça puxada por burros, visitando os povoados vizinhos que não dispunham de produção própria. Um desses comerciantes, lá pela década de 1930, se chamava Alejandro Laguna. Meu pai, então com uns oito anos de idade, trabalhando para Don Alejandro, ia na frente da carroça e alcançava a praça central do povoado seguinte para apregoar a mercadoria. Após um breve toque de corneta, gritava: “Se vende vino tinto superior de San Román de La Hornija! A siete pesetas El cántaro (1), en La Plaza mayor” [Vende-se vinho tinto superior de San Román de La Hornija! A sete pesetas o cântaro, no grande mercado”].

Hoje, esse vinho não é mais como aquele de 1930. Como em quase todas as zonas vinícolas do mundo, para nossa sorte, a tecnologia também chegou a Toro e lá encontrou terra e clima excepcionais, além de um fato curioso: vides pré-filoxéricas (2). Mas também é verdade que seus vinhos já não custam sete pesetas o cântaro, o que seria um centavo de real o litro. Pena!

(1) mais ou menos 16 litros – varia conforme a região.

(2) vides pré-filoxéricas: vide é sinônimo de vinha, videira; pré-filoxéricas significa antes da filoxera. A filoxera foi un parasita que atacou as vides europeias e as arrasou entre 1880 e 1905. A filoxera é um inseto que ataca as raízes das videiras europeias e, ao secá-las, a planta morre. Descobriu-se que a filoxera atacava as raízes das videiras europeíza e as folhas das videiras americanas. A solução foi colocar a parte subterrânea da videira de procedência americana e a parte aérea de procedência europeia. Assim se pôde voltar a plantar toda a vinha destruída pelo parasita. Não obstante, en alguns lugares, pela composição do terreno e localização, a filoxera não pôde chegar à vinha e não a atacou. São estas vinhas às chamadas pré-filoxéricas, já que não lhes atingiu a filoxera e isto nos indica que estas vinhas têm uma idade compreendida entre 80 e 100 anos. Daí este nome.

 

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