Bretanomyces spp.

Texto: Eduardo Giovannini 

Antes dos trabalhos de Louis Pasteur pouco se sabia a respeito de como, por quê e o que fazia o vinho. Este grande cientista demonstrou que o vinho era produto do metabolismo de microrganismos.

Alguns micróbios fazem o vinho, outros tentam destruí-lo. A fermentação alcoólica é responsabilidade das leveduras, especialmente das do gênero Saccharomyces, sendo várias envolvidas no processo, mas predominando a S.cerevisiae. A fermentação malolática é feita por bactérias Leuconostoc oenos. Estes são os microrganismos “bons”, sem os quais não se teria o vinho.

Do outro lado há uma série de seres vivos que atuam de modo a destruir o vinho. As bactérias do gênero Acetobacter tentam transformá-lo em vinagre e há uma gama de outros seres microscópicos que alteram as características do produto.

As leveduras do gênero Bretanomyces são algumas das responsáveis pela formação do “véu” em vinhos armazenados em recipientes de madeira onde o contato com o oxigênio seja excessivo. Este “véu” se deve à transformação do álcool etílico (o álcool potável) em acetaldeído. O acetaldeído pode apresentar ao degustador a sensação olfativa de vinagre, de acetona (removedor de esmalte de unhas) ou do próprio esmalte para unhas. É bem interessante notar que estas leveduras resistem às doses usuais de dióxido de enxofre que se usa nos vinhos.

Em alguns vinhos da Europa, ainda hoje, os aromas citados são tidos como típicos do vinho de determinada região. Isto se explica pela falta de higiene (pela falta de conhecimento em microbiologia) que reinava até o século XIX. Atualmente, os aromas devidos à Bretanomyces são considerados graves defeitos nos vinhos da maior parte do mundo. Além destes aromas mais comuns há uma gama de cheiros extremamente desagradáveis de se encontrar em um cálice de vinho: fezes de animais, humanas, suor humano e mais facilmente encontrável e detectável, o cheiro de cavalo suado. Parece um pouco absurdo se referir a estes aromas nos vinhos, mas ainda há vinhos que apresentam estes defeitos.

Este microrganismo sobrevive em adegas mal higienizadas, vivendo na madeira das barricas e quaisquer outros recipientes sujos. Barricas de carvalho não higienizadas são um dos grandes depósitos de Bretanomyces. Esta levedura vive também na própria uva e entra nas cantinas de vinificação com a mesma. Algumas variedades de uva são mais suscetíveis como, por exemplo, a ‘Touriga Nacional’ e a ‘Cabernet Sauvignon’. Deste modo, às vezes mesmo que o setor de vinificação e de amadurecimento do vinho esteja limpo, o produto poderá apresentar os referidos aromas.

Evita-se tal problema com as seguintes práticas: produção de uva com sanidade (isenta de microrganismos);
estabelecimento vinícola totalmente higienizado; barricas e outros recipientes de madeira novos e/ou mantidos limpos; e atestos (completar o nível evitando a presença de ar) freqüentes nos recipientes vinários.

Vinhos que apresentem os referidos aromas são, certamente, vinhos com problemas não apenas no que diz respeito à qualidade organoléptica, mas também no que se refere à higiene da empresa produtora e não devem ser consumidos. A desculpa de que tais aromas são característicos da região não pode mais ser aceita, pois é um problema que pode e deve ser controlado.

 

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