Uva Syrah

Texto: Eduardo Giovannini

Uma das hipóteses mais difundidas e aceitas até recentemente sobre a origem desta uva indicavam a mesma como proveniente do Oriente Médio, mais especificamente da localidade de Shiraz, no Irã. A segunda hipótese sugeria sua origem em Siracusa, colônia grega localizada na Sicília. A partir destas localidades teria chegado há muitos séculos ao Vale do Ródano.

No entanto, recentes estudos analisando o DNA, indicam que as hipóteses anteriores se sustentavam apenas na similaridade do nome da uva com os possíveis lugares de origem. A ‘Syrah’ é uma uva autóctone do norte do Vale do Ródano ou de Dauphiné, surgida a partir de cruzamento natural (não feito pelo homem) entre ‘Mondeuse Blanche’ e ‘Dureza’ (tinta). Estas uvas que a originaram são variedades de pouca importância atualmente na França.

Cruzamentos naturais são raros, mas há pelo menos um outro exemplo de uva famosa que assim surgiu: ‘Cabernet Sauvignon’ (‘Cabernet Franc’ x ‘Sauvignon Blanc’).

A ‘Syrah’ é uma videira que emite ramos longos e frágeis devendo ser cuidadosamente amarrada ao sistema de condução, caso contrário, seus brotos quebram se houver ventos fortes. Na maior parte dos lugares onde é cultivada pode ser podada curta (o que facilita o manejo e regula a produtividade).

Não apresenta maiores sensibilidades ás moléstias fúngicas da videira do que as demais cultivares, sendo um pouco mais sensível à podridão cinzenta nas safras chuvosas.

 

Sua uva amadurece rapvideiraidamente, sendo o período de vindima muito breve. Em poucos dias, e se o tempo estiver bom, os aromas evoluem na seguinte ordem herbáceos-framboesa-ameixa-pimenta preta-amora-azeitona preta-geléia. Os cachos e as bagas são de pequenos a médios, permitindo se obter vinhos aptos ao envelhecimento e de grande qualidade. São vinhos de cor intensa, muito aromáticos, finos, complexos (violeta, couro e azeitona), tânicos e relativamente pouco ácidos (pH alto, especialmente quando plantada em solos xistosos). Desta uva também se elaboram rosados muito frutados e interessantes.

É cultivada em vários países além de sua terra natal, sendo na Austrália onde mais se destaca, tanto por ser a uva que tem a maior área plantada, como por ser a que origina seus melhores vinhos. Na Califórnia ressurgiu há poucos anos substituindo a ‘Petite Syrah’ (que não é a mesma ‘Syrah’ mas sim é a variedade ‘Durif’, uva de pouca qualidade). No Chile e na Argentina se obtêm os melhores vinhos nos mesoclimas mais frios, dentro das regiões geralmente quentes. Também é plantada no Brasil, no Vale do São Francisco, na Serra Gaúcha e na Campanha Gaúcha.

É, sem dúvida, uma das grandes uvas para se fazer vinhos finos tintos no mundo.

 

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Olfato

Quando falamos de sentidos, sempre relegamos o olfato a um segundo plano. Num primeiro momento, parece mais fácil ser anosmático (*) do que cego ou surdo. Oxalá não tenhamos de fazer essa classe de opções! Mas eu, que defendo que a mesa é o prazer mais importante das nossas vidas, pelo menos pararia para pensar, pois, sem olfato, não existem tais prazeres.

Nesta ficha, do total de pontos em 100, reservado ao olfato somam-se 30, o que não significa que a importância do olfato na pontuação de um vinho seja de 30 em 100, já que, como muito do que se sente na boca na verdade também é olfato.

Intensidade é um aspecto do olfato que não requer explicação. É intensidade mesmo, potência dos aromas, força, volume de aromas. Enfim, nenhuma palavra é melhor que “intensidade”, a qual, como se vê no detalhe, pontua-se nesta ficha de 0 a 10.

Chamo de complexidade à multiplicidade de aromas. Levando-o para um campo mais familiar – as cores –, se um aroma simples é representado por uma cor ou duas, um aroma muito complexo é um caleidoscópio. Mais fácil ainda: um ponto para uma cor, e dez pontos para dez cores. E, sendo que as cores são sete, ainda temos três para imaginar (são comprimentos de onda que só captamos com a abstração).

Qualidade e harmonia são dois conceitos que se fundem, pois não há harmonia de má qualidade, e não há qualidade sem harmonia. Outra vez acudo a uma figura – a música. O que faz uma música ter qualidade não é a variedade de sons ou timbres, mas a beleza da combinação, ainda que de poucos elementos. Wes Montgomery pode ser tão bom como Rachmaninov, ou Bono Vox, cada um no seu estilo.

(*) Desprovido de olfato; ou que não distingue todos os odores (segundo o dicionário).

 

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Condições Ideais

Fala-se muito das condições ideais para o cultivo de uva para vinho. Os textos técnicos citam as condições ideais, os textos publicitários dos produtores citam as condições ideais. Mas quais são essas famosas condições ideais?condicoes

Para entender melhor as tais condições  ideais é preciso antes entender o ciclo da videira que é mais ou menos assim: descanso, crescimento e maturação.

Descansa no inverno, cresce na primavera e matura no verão. No descanso apresenta o tronco nu, no crescimento aparecem as folhas e na maturação os frutos, a uva. Na verdade o ciclo da uva é bem mais complexo do que isso, mas este super-resumo nos serve muito bem agora.

As condições ideais de referência são então e não necessariamente nessa ordem:

1º – Temperatura

A média anual deve estar entre os 11 e os 18 graus centígrados, mas isso por si diz muito pouco, mais importante do que a média é a distribuição das temperaturas não só no ano como num período de 24 horas.

Baixas no inverno, mas não inferiores a uns – 15º. Altas no verão, mas não superiores a 40º. Quanto maior a diferença de temperatura entre noite e dia no período de maturação, tanto melhor.

2º – Insolação

De 1500 a 1600 horas de sol ao ano das quais 1200 entre primavera e verão.

3º – Regime de chuvas

Entre 350 e 600 mm ao ano.

Tal como a temperatura, é mais importante a distribuição das chuvas anuais que seus valores médios.

Chuvas no inverno não fazem muita diferença salvo como reserva de água no solo para o futuro. Chuvas na primavera, desejável mas sem exageros.

No verão quanto menos chuva melhor.

4º – Terreno pobre e drenado

Se diz que a videira é pouco exigente quanto a solos. Podemos vê-lo de outro modo, ela exige solos pobres. A drenagem do solo é fundamental pela mesma razão: a videira é muito exigente quanto a volumes de água o que não é muito controlável em terrenos de pouca drenagem.

A luz desse pequeno resumo e para efeito ilustrativo, façamos uma análise da vocação enológica de um terreno no litoral paulista, Ubatuba, por exemplo.

  1. As temperaturas no inverno são altas, não há estações marcadas.
  2. A diferença de temperatura noite/dia, é baixa.
  3. Existem mais horas de sol no inverno que no verão quando o céu anda muito encoberto.
  4. Chove no verão (o tempo todo).
  5. A terra é orgânica, super rica.
  6. São terrenos planos e solos com alta retenção de água.

E é por isso que não se faz vinho em Ubatuba.

 

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