O milho voador

Texto de Francesca Prince

Ao largo de milhares de anos, o vento, os insetos ou pássaros têm transportado o pólen do milho do norte ao sul da América, propagando suas sementes ao longo do continente.

Em novembro de 1492, poucos dias após o desembarque em Cuba, o filho de Cristóvão Colombo anota em seu diário: “ Existem grandes extensões de terra em que se cultiva uma espécie de grão, semelhante as espigas de trigo, chamado mais, apresentam bom sabor cozinhado ao forno, também o secam e fazem farinha”. Os europeus acabavam de descobrir o milho.

Para todas as culturas autótonas, o milho é sagrado. Celebrações e rituais religiosos rendem honras à gramínea, base de sua alimentação e de sua cultura. O grande livro dos maias, o Popol Vuh, narra a criação do Homem: “o primeiro homem estava feito de argila e foi destruído por uma inundação; o Segundo homem estava feito de Madeira, mas uma grande chuva o levou. Somente o terceiro homem sobreviveu. Estava feito de milho”.

Os colonizadores veem com maus olhos os ritos em torno do milho que associam com as formas mais depravadas do paganismo. Com a finalidade de erradicar o mal desde a raiz, começam a destruição dos cultivos. Para assegurarem-se a alimentação de bons cristãos, os colonos plantam em seu lugar o trigo. Porém o cultivo não se dá bem naquelas terras, fazendo com que os europeus se adaptem ao cereal local. O milho havia ganhada a batalha.

Entretanto, pós haver viajado de uma ponta a outra, conquistando todos os países, as sementes não se detém na América, e sim continuam sua viagem alcançando a Europa.

O milho faz sua aparição no Velho Continente entre 1520 e 1530. O curioso deste caso é que o novo alimento não chega por meio dos comerciantes portugueses ou espanhóis, e sim, entra pelo porto de Veneza. Por sua vez, os venezianos o importaram da Pérsia, nessa época nas mãos dos turcos… Por isso, em italiano, o milho é chamado de granoturco. A nova gramínea se expande rapidamente, re-distribuindo o cultivo tradicional de mijo (mill, millet ou derivações similares em várias línguas latinas, o que se dará em portugês “milho”).

Uma vez mais, o milho voador não se conforma com extender-se por terras européias e orientais, em seu afã de conquista, adentra o Império da Grande Muralha. Em 1530 desembarca na China, proveniente talvez da Índia ou Birmânia…

Já que estamos na China, cruzemos novamente o oceano e voltamos a América, continente do milho por excelência, e mais concretamente ao Chile. Muito provavelmente, esta exaustiva viagem através do globo nos abriu o apetite.

Agora, só nos resta mãos a obra para desfrutar deste prato, compartir experiências de viagens em alegre companhia e excelente vinho. Bon voyage y… bon appétit!

 

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