Chips e sticks

Como sabemos, parte do vinho produzido no mundo é engarrafado após a vinificação e vendido como vinho jovem, vinho fresco, vinho de colheita. Outra parte, e conforme decisão do enólogo que o produz, vai para um barril de carvalho para viver um estágio em madeira. O que determina essa decisão é um conjunto de fatores (não é o caso de analisá-los, aqui e agora). Mas, com os vinhos que vão ao barril, pretende-se que, lá, eles vivam mudanças estruturais, por combinação de taninos e antocianos, e que adquiram da madeira qualidades aromáticas e gustativas tão apreciadas pelo mercado consumidor. Pretende-se que o vinho melhore. E assim, de fato, acontece.

Acontece também que essa etapa é cara. Os barris são caros e mais caros se fazem quando se considera sua restrita vida útil. Frente a esses altos custos, os produtores vêm buscando “métodos alternativos ao estágio em madeira”, formas de conseguir os mesmos efeitos estruturais e aromático-gustativos, mas sem aquele alto custo – ou seja, sem o uso de barris.

Como se faz isso? Há uma coleção de modalidades, mas todas se resumem em colocar o vinho em contato com a madeira: por exemplo, colocando pedaços de madeira dentro do vinho. Isso é feito das formas mais agressivas: com bolsas de cavacos de madeira (“chips”) como que fazendo um chá de madeira, ou com traves (“sticks”) de carvalho penduradas dentro de uma cuba de aço inox.

Essas técnicas vêm sendo utilizadas há um par de décadas no Novo Mundo, mas tratadas com talvez exagerada noturnidade. Entendo a discrição, pois o consumidor não se sentiria muito confortável ao saber que aquele vinho que comprou em cujo rótulo diz “um ano de barril”, jamais viu um barril de verdade, ainda que o consumidor não possa perceber isso na taça. Entendo também que não devemos desprezar os avanços da tecnologia, que nos permitem vinhos cada vez melhores, por preços cada vez menores.

Assim exposta a questão, oremos!

Esse fenômeno, por ser recente, pega a lei no contrapé. Em muitos países, inclusive do Velho Mundo, essas técnicas não são bem vistas, mas a lei ignora-as, e já não sei se adrede, ou pelo mero vício de andar sempre com atraso. Já a lei de vinho francesa não as permite – mas a França é um grande exportador de chips e traves de carvalho. No Novo Mundo são procedimentos aceitos, ainda que não contemplados em lei, mas, por enquanto, eles têm sido tratados com reserva.

Cedo ou tarde, esse assunto virá à baila legal e mercadologicamente, e quem sabe teremos essas técnicas aceitas e evidenciadas no rótulo?!

Não há nenhuma razão para susto, porque os relógios de quartzo não extinguiram os relógios mecânicos (ainda que a comparação seja difícil, pois o padrão de qualidade de um relógio é sua precisão na medida do tempo e, no caso do vinho, o padrão é o barril – que, portanto, permanecerá intocado, e caro!).

Também vale dizer que o mero fato de colocar um vinho em um barril não faz dele um grande vinho. Para ir mais longe: colocar um vinho alguns poucos meses em um barril com mais de dez anos de uso, pouco ou nada fará por ele, mas somente permitirá ao produtor dizer no rótulo que aquele é um vinho com estágio em barril, sem maiores problemas de consciência. Por outro lado, as técnicas alternativas podem ser usadas com responsabilidade e até maestria, inclusive podendo ajudar a trazer, às nossas mesas, vinhos de qualidade a bom preço. E, de quebra, salvar alguns bosques de carvalho!

 

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