Pinotage, uma uva para amar ou odiar

Conheço pessoas, cuja opinião sobre vinhos respeito muito, que odeiam a pinotage. Por outro lado, também conheço pessoas, cuja opinião sobre vinhos respeito muito, que amam a pinotage. A pinotage é assim: tem um pouco de bastardo, de amante, de bandido, de filho pródigo, de aventureiro, de virginal e de apaixonante. Não podia faltar em nossas seleções.

A história da pinotage bem parece um enredo de Charles Dickens e começa na África do Sul, lá no ano de 1925, da mão do brilhante químico Dr. Abraham Izak Perold.

Perold resolveu cruzar a pinot noir com a hermitage. Especulam alguns que era uma cruza óbvia, pois essas uvas tinham qualidades opostas e complementares. Já outros a chamam de cruza improvável: o monarca com a mais inculta e pouco dotada plebéia. O fato é que assim foi, e daquela primeira cruza resultaram quatro sementes carinhosamente plantadas por Perold em seu próprio jardim.

Destacado a trabalho e mudando-se para Paarl, lá ficaram abandonadas as plantinhas, que, por obra do acaso, foram salvas da fúria de um jardineiro contratado para manter o jardim do Sr. Perold livre das ervas daninhas. Um aluno seu, conhecedor da existência das plantinhas, antecipou-se ao jardineiro e levou-as a um lugar seguro: a Universidade de Stellembosch.

Outros golpes de sorte aconteceram, pois, por pouco, as pinotages não foram enxertadas nuns pés que – depois se soube! – estavam terrivelmente doentes e, por isso, tiveram de ser destruídos. Nesse momento, o Dr. Perold já havia voltado de Paarl e acompanhava – de perto e com renovado entusiasmo – o desenvolvimento de suas plantinhas, que então já se chamavam mesmo pinotage, uma óbvia mistura dos nomes de suas uvas: pinot noir com hermitage.

Soube-se depois que houve uma pequena confusão, e aquela uva que se pensou ser uma hermitage era na verdade uma cinsault. “Pinotault” seria então seu nome mais justo – que, por sorte, não foi o adotado, por sua verdadeira e cabal impronunciabilidade (até este neologismo que ora empreguei também é praticamente impronunciável!).

No princípio, seu vinho desagradou, caiu em esquecimento. Mas ganhou novo impulso na década de 1960, quando um rótulo de pinotage brilhou num concurso. O mesmo ciclo repetiu-se nos 90s. Hoje, ganha entusiastas.

Um aspecto que julgo muito interessante na pinotage é que seu vinho, ao contrário daqueles elaborados com uvas clássicas, não sofre comparações com seu análogo produzido em origem. A tentação, por exemplo, de comparar um pinot noir chileno com um pinot noir de Burgundy é enorme. O pinotage africano só tem como padrão o que ele mesmo pretende ser.

 

Quer conhecer a Sociedade da Mesa, clube de vinhos? Acesse nosso site e aproveite a oferta especial para leitores do blog!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *