Vinho “fácil de beber”

Expressão muito utilizada no mundo do vinho e da qual, como muitas outras, não sei muito bem o que quer dizer.
Eu, particularmente, não tenho maiores dificuldades de beber vinho nenhum. Bebo todos com relativa facilidade. Por outro lado, entendo que certas expressões servem para abrandar algumas verdades nem sempre cômodas. De uma pessoa cuja presença não nos faz nenhuma diferença, dizemos que é “boa pessoa”; de uma obra pictórica que não nos emociona em absoluto, dizemos que “não ofende ninguém”; e de um vinho com pouco caráter, dizemos que é “fácil de beber”.

Entrando por essa vereda, eu diria que o carmenère é um vinho difícil de beber, que não agrada qualquer um, nem a mim. Tem sabores duros, final vegetal (*) . Demorei a achar carmenères que me agradassem. Mas consegui encontrar alguns até hoje, que não tive nenhuma dificuldade em beber.

(*) Diz-se que o vinho é vegetal quando apresenta esta característica, mas ela tende a desaparecer com o tempo. Não se constitui, então, em caráter negativo. Distingue-se do herbáceo, que é um vinho mais intenso, cuja característica de erva não desaparece com a maturação nem com o envelhecimento do vinho, sendo considerado um caráter negativo. Muitos carmenères tendem para um final vegetal, não sendo, de todo, desagradáveis.

 

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Sobre caber

O infinito cabe do lado de fora de uma jarra de um litro.

Vinho em taça

Para meu desespero, é muito difícil encontrar um restaurante com uma boa variedade de vinhos servidos em taça. Sorte sua se encontrar um cujos vinhos servidos em taça forem minimamente bons, já que os restaurantes reservam para o serviço em taça os piores vinhos da carta.

Acredito que esse mau hábito venha, dentre outras coisas, de pensar que uma pessoa que pede vinho em taça quer é economizar dinheiro. Não é assim. O serviço de vinho em taça é uma possibilidade de consumir o vinho adequado para cada momento de sua refeição. Assim, de entrada e sem ir muito longe, uma refeição como manda o figurino exige, pelo menos, quatro vinhos diferentes: aperitivo, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. Estando sozinho ou a dois, parece-me um pouco despropositado pedir quatro garrafas diferentes de vinho, não só pela quantidade, mas também pela pequena fortuna que você irá despender, sem falar que, logo após a refeição, você certamente irá pedir para o maître colocar as garrafas quase cheias numa caixa a fim de que você as leve para casa.

Uma boa carta de vinhos deve dispor, em serviço de taças, de espumantes, xerezes secos, brancos, tintos e doces. Estranhamente, os vinhos doces nunca são oferecidos em taças, mas são os únicos tipos de vinho que necessariamente devem ser servidos em taça. É pouco razoável pensar que de uma a três pessoas estejam dispostas a, após uma opípara refeição acompanhada de vinhos diversos, tomar uma garrafa inteira de um vinho de talvez 20 graus. É pouco razoável pensar que, numa mesa de oito pessoas, as oito queiram tomar a mesma coisa após a refeição.

E, já que estamos, sim, dispostos a exigir dos restaurantes mais vinhos em taças, exijamos também seu correto armazenamento ou manuseio, para não ficar bebendo vinhos oxidados!

As possibilidades e seus respectivos graus de eficiência são os que seguem:

1) os vinhos servidos em taças têm um giro tal que as garrafas são abertas diariamente, e, no fim do dia, o vinho restante nas garrafas abertas é dispensado: processo eficiente e caríssimo;

2) o restaurante usa vacu-vin para guardar as garrafas de um dia para o outro: processo de média eficiência;

3) opta-se pelo dispensador de vinho com gás inerte: eficiência total, ainda que muitas pessoas não gostem de que o vinho venha à mesa já na taça.

 

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Pinotage, uma uva para amar ou odiar

Conheço pessoas, cuja opinião sobre vinhos respeito muito, que odeiam a pinotage. Por outro lado, também conheço pessoas, cuja opinião sobre vinhos respeito muito, que amam a pinotage. A pinotage é assim: tem um pouco de bastardo, de amante, de bandido, de filho pródigo, de aventureiro, de virginal e de apaixonante. Não podia faltar em nossas seleções.

A história da pinotage bem parece um enredo de Charles Dickens e começa na África do Sul, lá no ano de 1925, da mão do brilhante químico Dr. Abraham Izak Perold.

Perold resolveu cruzar a pinot noir com a hermitage. Especulam alguns que era uma cruza óbvia, pois essas uvas tinham qualidades opostas e complementares. Já outros a chamam de cruza improvável: o monarca com a mais inculta e pouco dotada plebéia. O fato é que assim foi, e daquela primeira cruza resultaram quatro sementes carinhosamente plantadas por Perold em seu próprio jardim.

Destacado a trabalho e mudando-se para Paarl, lá ficaram abandonadas as plantinhas, que, por obra do acaso, foram salvas da fúria de um jardineiro contratado para manter o jardim do Sr. Perold livre das ervas daninhas. Um aluno seu, conhecedor da existência das plantinhas, antecipou-se ao jardineiro e levou-as a um lugar seguro: a Universidade de Stellembosch.

Outros golpes de sorte aconteceram, pois, por pouco, as pinotages não foram enxertadas nuns pés que – depois se soube! – estavam terrivelmente doentes e, por isso, tiveram de ser destruídos. Nesse momento, o Dr. Perold já havia voltado de Paarl e acompanhava – de perto e com renovado entusiasmo – o desenvolvimento de suas plantinhas, que então já se chamavam mesmo pinotage, uma óbvia mistura dos nomes de suas uvas: pinot noir com hermitage.

Soube-se depois que houve uma pequena confusão, e aquela uva que se pensou ser uma hermitage era na verdade uma cinsault. “Pinotault” seria então seu nome mais justo – que, por sorte, não foi o adotado, por sua verdadeira e cabal impronunciabilidade (até este neologismo que ora empreguei também é praticamente impronunciável!).

No princípio, seu vinho desagradou, caiu em esquecimento. Mas ganhou novo impulso na década de 1960, quando um rótulo de pinotage brilhou num concurso. O mesmo ciclo repetiu-se nos 90s. Hoje, ganha entusiastas.

Um aspecto que julgo muito interessante na pinotage é que seu vinho, ao contrário daqueles elaborados com uvas clássicas, não sofre comparações com seu análogo produzido em origem. A tentação, por exemplo, de comparar um pinot noir chileno com um pinot noir de Burgundy é enorme. O pinotage africano só tem como padrão o que ele mesmo pretende ser.

 

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