Rolha sintética

Achei excelente a oportunidade para tocar nesse assunto, que é atual, polêmico e, portanto, muito estimulante, além de praticamente ter interesse mundial.

Para não desenrolar toda uma sequência enorme e enfadonha de fatos, preparei um resumo da questão em forma de argumentos e réplicas entre a facção sintética e a facção natural, que permite visualizar o debate a respeito do uso de um tipo ou outro de rolha. Tirem suas próprias conclusões!

Argumento: a rolha natural é tradição, e desrolhar uma garrafa é ritual prazeroso.

Réplica: as tradições são involutivas, vão contra o saudável e inevitável desenvolvimento da indústria e da tecnologia. Ninguém usa velas em casa, no lugar da energia elétrica, por causa ou em nome da tradição. Para utilizar uma analogia: o advento da tampa “abre-fácil” das latas de alumínio não gerou um grupo de saudosistas do abridor de latas.

Argumento: a rolha natural permite uma desejada micro-oxigenação, contribuindo para o amadurecimento do vinho em garrafa.

Réplica: não está claramente provado que exista a tal micro-oxigenação.

Argumento: a hermeticidade, a durabilidade e a elasticidade da rolha natural não se encontram da mesma forma nas rolhas sintéticas, que, por sua vez, não podem ser usadas em vinhos que serão guardados em garrafa por muito tempo – porque estas perderiam sua elasticidade e resultariam arruinados.

Réplica: a indústria e a tecnologia de novos materiais vêm se desenvolvendo com rapidez; hoje, já existem tampões sintéticos de rosca muito eficientes, inclusive para guarda. Ninguém duvida da eficiência das rolhas metálicas utilizadas no processo de gaseificação dos melhores champanhes.

Argumento: os detratores da rolha natural são justamente aqueles países produtores de vinho que não produzem rolhas naturais. A defesa das rolhas sintéticas tem fundo estritamente econômico.

Réplica: os defensores da rolha natural são justamente os países produtores de rolha natural. A defesa das rolhas naturais tem fundo estritamente econômico.

Argumento: a rolha natural é um produto usado há quase dois séculos e, portanto, consagrado. A rolha sintética é um produto artificial, derivado do petróleo, e suas consequências para a saúde ainda não estão de todo esclarecidas.

Réplica: atualmente, quase tudo o que comemos vem em embalagens sintéticas. Não seria a rolha sintética que nos causaria algum dano.

Argumento: a rolha sintética evita o “bouchoné” (gosto de rolha), que só ocorre com rolha natural e que seria responsável pela perda de até 6% de toda a produção mundial de vinho.

Réplica: essa informação está totalmente equivocada. Renomados institutos de pesquisa já provaram que esse número não passaria de 0,6%. Ainda assim, a indústria da rolha natural está a ponto de lançar no mercado uma rolha imune ao “bouchoné”: são rolhas das quais já foi retirada a molécula 2,4,6–TCA, a qual, por meio da ação de um fungo, geraria esse problema. Por outro lado, as rolhas sintéticas não estão isentas de transferir sabores indesejados ao vinho. Essa ocorrência, sim, seria superior aos 6%.

Argumento: a rolha sintética é mais barata.

Réplica: existem rolhas naturais que são mais baratas do que as sintéticas.

Eu prefiro a rolha natural, mas confesso que é por questão pessoal e não preferência baseada em fatos. O que, sim, tento evitar, é julgar um vinho por sua rolha. Porque me parece mais sensato julgar o vinho pelo vinho!

 

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