Decantar e arejar

A confusão já começa com o mau uso dessas palavras. É comum que pessoas se refiram ao arejamento como decantação, mas não as culpo. A origem da confusão é óbvia: o arejamento e a decantação fazem-se com o mesmo aparato (o decantador, ou decanter – como preferem alguns – e gestual parecido). Além disso, ambos os efeitos podem ser associados. Ou seja: sempre que se decanta, areja-se também um pouco.

Decantar: É separar um sólido de um líquido por ação da gravidade, e só! Se não há sólidos em suspensão no vinho, não há o que decantar. Fim da questão!

Arejar: É expor o vinho ao contato com o ar, com o oxigênio. Entende-se que alguns vinhos ganham com esse processo, melhoram, abrem e mostram sua plenitude.

Arejar é um assunto que vem produzindo saudáveis debates, mesmo porque, quando o assunto é vinho, todo debate é saudável e – até onde sei – nunca termina mal. Há grandes partidários do arejamento para casos que enumeram com desenvoltura e convicção, e há também os absolutos inimigos do oxigênio.
Os melhores autores garantem, sempre alegando terem base em estudos criteriosos, que o vinho velho sempre perde com o arejamento e que, no caso dos vinhos novos, o arejamento ficaria reservado aos que apresentam algum defeito (pouco volume aromático ou presença de gás carbônico).
É fácil acreditar que a probabilidade de estragar um vinho arejando-o supera a probabilidade de melhorá-lo, salvo se conheçamos bem aquele vinho que vamos abrir e saibamos o efeito que o arejamento terá nele.
Também é fácil deixar-se enganar pelo fato de que um vinho que ganha alguns graus num arejamento, solta melhor seus aromas. Foi a temperatura que o fez, e não o arejamento.
Sou, então, partidário do “na dúvida, não areje!”.

Como decantar: Numa garrafa em repouso, os sólidos estarão no fundo. Verta o líquido em um decanter, com cuidado, para não revolver o fundo. Você terá no decanter somente o líquido limpo. Aqui começam as curiosidades. Veja que, no processo descrito, o verdadeiro decanter é a garrafa, pois é onde ocorreu a decantação. Se ainda houvesse partículas em suspensão no decanter, o processo poderia ser repetido ao levar o vinho à taça, mas o formato dos decanters não auxilia muito a tarefa (seu bojo largo está mais pensado para o arejamento do vinho, e seu fundo chato não concentra o eventual pouso). O que se chama decanter, na maior parte das vezes, é muito mais um arejador. Lembremos que, se esse mesmo vinho não deve ser arejado, mas somente decantado, esse processo, que só alcança bom resultado se feito com muita parcimônia, deve ser feito às pressas para não arejar o vinho. E, se a intenção é somente decantar, isso pode, com alguma destreza, ser feito diretamente nas taças – se forem servidas todas de uma vez. Porque, se for para servir somente duas taças, por exemplo, repetir o movimento de serviço de tempo em tempo, várias vezes, levantaria o pouso.

Como arejar: O arejar consiste em, sem maiores precauções, verter o vinho no decanter e lá deixá-lo por um período de tempo, para que a grande superfície de vinho faça seu trabalho em contato com o ar. Claro que seu vinho, após esse período, terá perdido sua temperatura ideal. Para o problema, já ouvi soluções das mais aparatosas, entre as quais que a mais eficiente é deixar o decanter na adega (uma adega de verdade, subterrânea, pois numa adega climatizada doméstica não cabe um decanter em pé). Tem de ser assim, pois na geladeira poderia ganhar maus odores. E um decanter não se encaixa muito bem num balde de gelo.

Conclusões: Somente se decanta um vinho se o mesmo apresenta pouso.
O decanter, a despeito de seu nome, é mais eficiente para arejar.
Como regra, somente areje vinhos jovens que apresentem algum defeito.
E, por fim: para poder beber um vinho com defeito, é preciso construir uma adega subterrânea!

 

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